Desde o
início dessa coluna, decidi que em algum momento eu escreveria a
respeito de livros que foram importantes para minha vida, uma tarefa
nada fácil. Vez ou outra, me pego relendo algumas obras e quase
sempre caio em “O Apanhador no Campo de Centeio”. Me sento, leio,
coloco novamente na estante e o choque é o mesmo da primeira
leitura, como diz Nelson Rodrigues “Meu escândalo é total”.
Escrito
em 1951, pelo americano J.D Salinger, o romance é sucesso entre os
leitores do mundo ano a ano. Para que você tenha ideia, o livro foi
incluído na lista dos 100 melhores romances escritos
em língua inglesa desde 1923, além de estar nas principais
listas dos melhores livros de língua inglesa do século XX. O que
era inicialmente para ser um livro voltado aos adultos, logo se
tornou adorado pelos jovens graças ao seu personagem principal,
Holden Caulfield, um jovem de 17 anos que narra em primeira pessoa a
história.
Na trama,
Holden é expulso da escola em que estuda durante o inverno em Nova
York.
A história que se passa em um final de semana, traz o protagonista narrando a sua volta pra casa, passando por diversos lugares, na medida em que reflete sobre sua vida e seu futuro. Durante essas lentas reflexões, ele sente o mundo como um lugar repleto de gente falsa, hipocrisias e falta de sentido em todas as atitudes das pessoas que convive.
A história que se passa em um final de semana, traz o protagonista narrando a sua volta pra casa, passando por diversos lugares, na medida em que reflete sobre sua vida e seu futuro. Durante essas lentas reflexões, ele sente o mundo como um lugar repleto de gente falsa, hipocrisias e falta de sentido em todas as atitudes das pessoas que convive.
Ou seja, ele sente uma decepção
total com o mundo e principalmente com a sociedade americana do
pós-guerra. O livro para mim é muito mais que uma história de um
jovem vagando rumo ao nada, com uma narrativa inovadora e repleta de
gírias. “O Apanhador no Campo de Centeio” revela o
descontentamento com uma sociedade que apenas vive de aparências e
não enfrenta as suas verdades. A industrialização do pós-guerra
trouxe consigo a sociedade de consumo e a competição pelo ter.
Junto a isso, trouxe também a descrença de uma geração em
instituições sagradas pelos americanos conservadores como a igreja,
escola e família. Os avanços que deveriam representar uma vida
melhor nada fazem e apenas alimentam a descrença de uma juventude
niilista, de como é contado por Holden Caulfield.
Essas
ilusões fúteis que o nosso personagem descreve ao longo das 240
páginas do romance, foram combustível, segundo alguns, para que o
assassino Mark Chapman desse 4 tiros em John Lennon, em frente ao
edifício Dakota, em Nova York, em dezembro de 1980. Chapman dizia se
identificar com Holden Caulfield justamente pelos motivos citados
acima. Entretanto, depois afirmou que os motivos do assassinato foram
“blasfêmias” contra Deus, por Lennon se declarar mais popular
que Jesus Cristo. A sociedade pós-guerra industrializada, o
consumismo desenfreado, a luta por status pelo ter, e não
ser, levaram J.D Salinger a criar Holden Caulfield. Assim como a
desilusão, frustração e desencanto com a sociedade fizeram com que
ele vivesse recluso, sem dar entrevistas e sem nunca mais escrever um
romance até sua morte em 2010, aos 91 anos. “O Apanhador no Campo
de Centeio” foi a sua única obra.
Olhemos
agora para os dias atuais. Vemos uma sociedade de consumo em que o
importante são os últimos Iphones, além das Selfies
com legenda feliz ou reflexiva. As redes sociais não permitem Holden
Caulfield's e Salingers, não permitem a
sinceridade, a expressão de um gostar ou não por determinada
música, filme ou coisa que o valha. Você gosta dando Like,
ou se discorda não tem espaço para reflexão ou ponto de vista
diferente que não seja amei, gratidão, adoro. Ainda mais em tempos
de “Fla x Flu” ideológico com outros adjetivos e argumentos
políticos tão razos quanto um pires de leite.
A pessoa
viu a outra postar algo ridículo, mas dá um Like.
Qualquer outro comentário que não seja “gratidão” ou sinônimos
de beleza e amor, não é aceito. Fotos de comida? Tem de sobra. Vi
um folder de uma cidade turistica outro dia em que ao fundo estava a
paisagem e uma pessoa sozinha tirava uma selfie sorridente. Não
digo que precisamos viver em um mundo carrancudo, fechado, mas quem
expõe sua sinceridade é visto com desconfiança e mesmo isolado por
não falar a mesma língua do que está na moda.
É preciso ter a roupa, celular (ou melhor Smartphone) da moda, ouvir a música da moda, ir nos lugares ditos “cool's”, do contrário você é só mais um. Vivemos uma vida moderna em que é preciso rezar o mesmo catecismo concensual da sociedade, qualquer crítica perturba a todos.
É preciso ter a roupa, celular (ou melhor Smartphone) da moda, ouvir a música da moda, ir nos lugares ditos “cool's”, do contrário você é só mais um. Vivemos uma vida moderna em que é preciso rezar o mesmo catecismo concensual da sociedade, qualquer crítica perturba a todos.
Ao ser
expulso do colégio em Nova York, Holden Caulfield conviveu com tudo
isso. Em uma época pré-internet, viu pessoas fingindo em um mundo
que buscava algo de verdadeiro nas coisas que os indivíduos faziam
ou diziam, porém se sentia cada vez mais só.
Daí o título da obra “O Apanhador no Campo de Centeio”, um campo enorme e apenas um homem só. A sociedade atual é isso, egoísta, se alimentando de Likes e vive cada vez mais de ilusões fúteis, dando a impressão de felicidade nas telas brilhantes. Amor vem sendo usado como sinônimo de ótimo e a vida offline vem acompanhada de pedidos de senha wi-fi , só Holden Caulfield nos salva.
Daí o título da obra “O Apanhador no Campo de Centeio”, um campo enorme e apenas um homem só. A sociedade atual é isso, egoísta, se alimentando de Likes e vive cada vez mais de ilusões fúteis, dando a impressão de felicidade nas telas brilhantes. Amor vem sendo usado como sinônimo de ótimo e a vida offline vem acompanhada de pedidos de senha wi-fi , só Holden Caulfield nos salva.

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