Demorei
um pouco para assistir “Bingo, o Rei das Manhãs” no cinema, mas
a espera valeu. A produção é disparada uma das melhores nacionais
dos últimos anos. O cinema brasileiro ultimamente estava nivelado
por baixo. Comédias de orçamento nababesco se notabilizaram em
fazer um humor que tem tanta graça quanto fazer um tratamento de
canal. É evidente que nosso cinema é criativo e tem qualidade.
As
produções em massa da segunda metade do século XX nos deram muitos
bons filmes, mas foi dos anos 90 em diante que tivemos sucessos de
crítica e público como: “Central do Brasil”, “O Que é Isso,
Companheiro?”, “Alto da Compadecida”, “Tropa de Elite 1 e 2”,
“Carandiru”, “Cidade de Deus”, “Meu Nome não é Johnny”
, “Estrada 47”, isso apenas para citar alguns, porque a lista é
grande, incluindo outros não tão conhecidos.
O caso é,
que recentemente, as tais comédias citadas foram o foco da produção
do país. Evidentemente o lucro foi grande, do contrário, não
apostariam neste nicho. Acontece que retorno financeiro não é
sinônimo de qualidade, tá aí o mercado musical com as mais tocadas
para provar. Por isso, nos últimos anos eu praticamente assisti
apenas documentários, pois era impossível se interessar por
qualquer longa nacional. Quando soube que “Bingo” estava sendo
produzido, tudo mudou.
Já
conhecia por cima a história do protagonista. Tinha esbarrado no
nome de Arlindo Barreto no meu trabalho de conclusão de curso de
História em que pesquisei sobre “Pornochanchada” (mas isso é
assunto para outro dia). Sabia também que ele foi o primeiro
intérprete do palhaço Bozo, transformado em “Bingo” no filme.
Mas, não tinha ideia dos excessos e loucura que virou a sua vida no
período em que fez sucesso no programa infantil matinal. “Bingo: o
Rei das Manhãs” (Daniel Rezende), narra com perfeição um período
da história brasileira que de colorido não tem nada. É comum ver
gente dizendo que nasceu na época errada, que queria ter nascido na
década de 1970 e vivido os 80, ou que imagina o Brasil como um local
harmônico e feliz, onde todos cantavam rock nacional, iam à praia e
dançavam. Daniel Rezende mostra o lado menos charmoso da década e
porque não dizer, pesado e obscuro. Se você não morasse em
capitais, vivia no meio do nada, rodeado de inflação, salários
baixos, cocaína e com uma programação de TV dividida entre dois
canais.
No filme,
“Bingo” (interpretado surpreendentemente bem por Vladimir
Bishta), deixa o papel de coadjuvante em uma novela da TV GLOBO (no
filme TV Mundial) para fazer um teste para ser palhaço de um
programa infantil que vai estrear no SBT (no filme TVP). Criativo, o
personagem consegue a vaga e pouco a pouco com um humor anárquico e
piadas que fariam hoje o Facebook virar um antro de textões até o
palhaço ser preso.
À máxima 70% inspiração e 30% Whisky, torna
Bingo um filme atrevido e provocador. Isso aliado a um palhaço que
cheira mais que um tamanduá bandeira, fazem o filme revelar essa
outra face da década 80. Tudo isso acompanhado de uma trilha sonora
exuberante e nunca vista antes no cinema nacional: Echo & the
Bunnyman, DEVO, NENA, fazem a parte gringa da trama. Já a trilha
nacional vai de Metrô à épica cena de Bingo cantando e dançando
com as crianças o impagável refrão de “Serão Extra – Dr.
Silvana & Cia”: “Eu fui dar mamãe/ fui dar um serão extra/
trabalhei com o patrão”.
Ainda
sobre o elenco, outro destaque fica por conta da atriz Emmanuele
Araujo, que interpreta Gretchen dançando “Conga, Conga, Conga”
com Bingo no seu programa matinal, fazendo com que a audiência passe
o programa líder da Xuxa (no filme chamado de Lua). Depois que
consegue a liderança, o filme aborda o outro lado, a decadência do
personagem. Não é normal o cinema brasileiro apresentar esse tipo
de abordagem, mas não tem nada mais interessante do que ver a queda
no cinema. Em geral, o brasileiro é fascinado por histórias de
superação e sucesso, mas ver Bingo fazendo o contrário é de uma
maestria inovadora para o nosso estilo de direção.
Daniel
Rezende acertou em cheio, Bingo e Augusto (seu alter ego) se
confundem e fazem o espectador realmente esquecer que aquilo é um
filme e acreditar que aquilo de fato aconteceu, como boa parte,
inclusive. O único porém no brilhante roteiro de Luis Bolognesi,
fica por conta do final didático e correto demais para um personagem
tão complexo, mas de maneira alguma chega a comprometer a obra.
Aliás, a fotografia e a trilha em uma tomada aérea ao final,
mostram que o acabamento foi pensado com muito cuidado pela produção.
Por fim, Bingo traz a inocência e verve erótica dos filmes da Boca
do Lixo, com um humor genuinamente brasileiro, com a dose perfeita de
drama para não fazer a obra ficar clichê. De minha parte, é um
filme 5 estrelas de 5 possíveis e faz todo cinema nacional mediano
nacional pós “Cidade de Deus”, ser reduzido a pó.

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