Sempre que o Rock in Rio se aproxima, me pego pensando nas grandes
atrações que eu gostaria de ter visto ao longo das suas 7 edições.
Evidentemente, a primeira edição, em 1985, com um Brasil saído de
uma ditadura militar e às cegas sobre o mundo do rock, foi a mais
marcante. Era uma época pré-internet em que as pessoas conheciam as
músicas apenas pela programação de corajosas rádios ou comprando
discos às cegas pela capa, o ouvinte tinha o crítico musical das
revistas como um guru que orientava o caminho para os bons sons. Pra
que o leitor tenha ideia de como era difícil ouvir rock e escrever
sobre música no Brasil nessa época. As coletivas de imprensa
durante o Rock in Rio serviam para que as bandas tivessem os membros
apresentados a todos, por exemplo: “Olá somos o Queen, eu sou
Freddie Mercury, ao meu lado de cabelos longos está o guitarrista
Brian May, o baterista Roger Taylor e o baixista John Deccon”.
Ainda em
85, me pergunto como Roberto Medina, idealizador do festival, foi
louco o suficiente para investir tudo no evento. Sorte nossa, pois se
não fosse pela sua ousadia, não teríamos naquele ano pela primeira
vez no Brasil bandas como: Queen, AC/DC, Whitesnake, B52's (que eu
adoro), Scorpions, James Taylor, Ozzy Osbourne, entre outras atrações
de qualidade e outras nacionais colocadas literalmente como “boi de
piranha”, levando uma chuva de vaias e garrafadas. Né Erasmo
Carlos, Lobão e Carlinhos Brown?
Em 1991,
a segunda edição foi realizada no estádio do Maracanã, e de
quebra é a minha preferida de todas, justamente por ser a mais
caótica e com o melhor line up ao meu ver: Prince, Joe
Cocker, INXS, Billy Idol, Faith no More, Run DMC, George Michael,
Happy Mondays (da qual sou fã) e a cereja do bolo com um dos maiores
shows de todas as edições do evento, A-Ha no auge. O Youtube tem
quase todos os shows na íntegra. Em 91, teve até o peruquento do
Serguei (aquele que jura que pegou a Janis Joplin, cascata!). As
atrações nacionais, aliás, foram uma das piores entre todos:
Engenheiros do Hawaii, Supla, Inimigos do Rei, Paulo Ricardo e
Capital Inicial, na sua pior fase. Vale lembrar que a principal
lembrança dos artias que por lá estiveram o cheiro terrível dos
banheiros e vãos do estádio.
Antes de
falar da atual edição, é preciso exaltar a terceira e não menos
interessante edição de 2001. Sem dúvida, foi uma das mais bem
pensadas e com um line up que me agradou muito: Oasis, Sting,
Neil Young (que fez um show espetacular), Deftones, Silverchair, Iron
Maiden e REM, que tocou para mais de 190 mil pessoas naquele que é
considerado um dos melhores shows da carreira da banda. Eu poderia
escrever um resumo das outras edições até chegar na que começa
nesse final de semana. Entretanto, nenhuma das anteriores consegue
ter a magnitude das citadas antes, cada uma representou uma década e
um estágio de comportamento do brasileiro. A atual edição, talvez
seja novamente a que represente um novo segmento, que já dava sinais
nas edições anteriores da atual década.
O
idealizador do Rock in Rio, Roberto Medina, tem uma frase que adora
repetir: “O Rock in Rio é o maior festival de música e
entretenimento do mundo”. Medina tem razão. Quem foi às últimas
edições, viu a Cidade do Rock transformada numa mistura de
Disneylândia com shopping center: pessoas pagavam 400 dinheiros pra
ficar 6 horas na fila da tirolesa e ainda saíam de lá sorrindo
depois de ganhar um brinde de uma fabricante de carros ou tirar uma
“selfie” com um papelão de algum “artista”, tipo aqueles de
formatura em tamanho real, manja? Rock in Rio não é mais um
festival de música, é um shopping com shows de brinde. A Rock
Street parece uma parte da Disney misturada com Beto Carreiro, graças
as grandes filas para as atrações do parque ou para ganhar um
brinde de alguma marca de automóvel ou de um banco. Dúvida?
Pergunte pra algum amigo que foi ou observe você mesmo as
transmissões e note esse detalhe.
Atualmente,
a música não importa mais. Importa ter atrações tão imensas que
agradem a todo mundo e garantam a lotação do evento. Tanto, que o
primeiro lote de ingressos esgota antes de anunciados os artistas.
Você compraria um carro sem ter visto ele? Sem testar, ver se é do
seu agrado? As pessoas compram o festival e não o que deveria ser o
principal, o show do seu artista preferido. Tenho um amigo fã de
Slipknot (sim, é verdade e ele tem mais de 18 anos). O sonho dele
era ver um show dos mascarados, e em 2011, gastou seus trocados pra
única e exclusivamente ver esse show. Voltou contando barbaridades a
respeito do preço de uma simples água ou de um cachorro quente.
O Rock in
Rio, hoje, é um evento em que a música é apenas um detalhe e o
principal está no que circunda o evento, estandes publicitários e
valores pagos por artistas que não valem nem metade. O line up
desse ano é cômico, uma mistura de baile da saudade com nomes
consagrados no pop, além de misturas constrangedoras. Veja algumas:
Céu convida Boogarinszzzzzzzz – pra quem tem problemas de
insônia, uma boa pedida é assistir esse show, é sono na certa!
Miguel convida Emicida – típico som que a classe média
alta ouve, mas que explora outras camadas sociais. Irônico e tem
tanta verdade quanto uma nota de 35 reais. Ney Matogrosso e Nação
Zumbi – eu ainda quero descobrir quem teve essa terrível
ideia. Outro dia o Fantástico mostrou a novidade e o Ney estava
visivelmente desconfortável. Jorge Du Peixe cantando continua um
horror. Sepultura com participação da Família Lima – acho
que o Max Cavalera tem razão quando fala que a banda deveria ter
acabado. Cidade Negra Canta Gilberto Gil – não consigo
escrever nada sobre isso, não tenho capacidade, deixo para o pessoal
formado em psicologia ou psiquiatria.
Por fim,
a parte boa, se você como eu verá os shows do seu sofá, já que o
Multishow, BIS e Rede Globo vão transmitir, não perca por nada as
seguintes atrações, sim é sério! Quem se importa com música tem
a obrigação de ver: Nile Roger & Chic, O Grande Encontro
convida Banda de Pífanos Zé do Estado e o Grupo Grial de Dança,
Ana Cañas convida Hyldon, The Kills, DJ Marky B2B & Dj Mau Mau,
The Who, Tears For Fears, Alicia Keys, Pet Shop Boys e Incubus. Temos
sim ótimas atrações, mas essas devem ser pinçadas a dedo. O
problema vai ser assistir em casa aquelas transmissões sofríveis.
Sempre algum repórter engraçadinho ou uma mocinha bonita com
sotaque gaúcho dizendo que a atração é de arrepiar. Informação,
detalhe, carreira, perguntas bem feitas no backstage, ZERO.
Tentarei me concentrar apenas nos shows, no mais, tô fora! Um bom
evento a todos.

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