terça-feira, 20 de março de 2018

Já assistiu Twin Peaks?



 Se o título desse texto fosse “Já assistiu Game Of Thrones?” certamente essa coluna teria mais ávidos leitores, talvez uma outra série completa, atual e com conteúodo completo na Netflix despertasse um interesse maior como a não menos sensacional “Black Mirror” (inspirada totalmente na que leva o título) 

Agora eu reforço a pergunta: Já assistiu Twin Peaks? Caso sua resposta seja negativa saiba que você passou mais de 25 anos (dependendo da sua idade) sem ver algo que mudou as regras da televisão norte-americana e por que não dizer mundial! Mas pra entender tudo isso, precisamos voltar para 1990, ano de estréia da mais bizarra e delirante série já produzida até então.

O responsável por isso? David Lynch, diretor que havia então assinado o incompreensível filme “Duna”, e o curioso mas não menos cult “Blue Velvet” (Veludo Azul). Em 1990, a ABC era o segundo maior canal de TV dos Estados Unidos. No dia 8 de abril, as 21 horas de domingo foi ao ar o Pilot de Twin Peaks com duas horas de duração. Depois, passou as quintas com episódios de 40 minutos. No ano seguinte, a série passaria na Globo (sério) o que não fazia muito sentido, mas quem assistiu se recorda até hoje do clima gélido da abertura composta pelo maestro italiano Angelo Badalamenti. Os bosques, uma serraria, uma cachoeira com um fundo músical, lembrando as trilhas de velho-oeste, davam a impressão que algo terrível poderia acontecer a qualquer momento, e de fato assim foi nas duas temporadas da série. 

Twin Peaks gira em torno do assassinato da linda e jovem Laura Palmer. Num vilarejo do noroeste americano chamado Twin Peaks, quase na fronteira com o Canadá. Onde nada é o que parece, onde ninguém é o que parece ser. Até então nunca uma série abordou um mistério assim. O Brasil estava acostumado graças as suas novelas. Alias, vivíamos a ressaca do mistério da trama “Vale Tudo” em que todos se perguntavam “Quem matou Odete Roittman”?

Mas isso é tema pra outro dia. Em Twin Peaks, o óbvio não existe, tal qual um pesadelo, todos são suspeitos do assassinato de Laura Palmer. Seria seu namorado? O Delegado da cidade? Um motorista de caminhão violento? O pai? A mãe? Alguma amiga enciumada? Enfim. A cada novo episódio surge uma nova pista, um novo suspeito, tudo isso comandado por um agente do FBI chamado Cooper (Kyle Maclachlan) o esquisitão, tal qual os habitantes da cidade. É viciado em café e torta de cereja, além de manter um diário em que conversa com a oculta Diane através de um gravador portátil. Twin Peaks tem erros como qualquer grande história. 

David Lynch recheou de muitos personagens desnecessários que deixaram o grande mistério um pouco de lado. Experiências extraterrestres, sonhos, delírios, sumiços e o próprio assassinato de Laura Palmer são roteiros difíceis de se entender a primeira vista, mas mesmo assim, ainda é uma série revolucionária. Recentemente, quase 25 anos depois como prometeu Laura Palmer, Twin Peaks voltou. A 3ª temporada está disponível no NetFlix mas não recomendo assistir sem ver as duas primeiras. Na atual temporada, são 18 episódios dirigidos por David Lynch que se preocupou em manter tudo sob o mais absoluto sigilo. Os atores só receberam os textos com suas falas nas cenas e não o texto da trama na integra. 

Os trailers eram incompreensíveis e as imagens sem informar muito, algo totalmente compreensível quando o assunto é Twin Peaks. Não assista a 3ª temporada sem antes ver as duas primeiras (Repito). É possível achar facilmente no “cinetorrent”. Por fim, se o leitor ainda não se convenceu eu dou mais um motivo para assistir a série. Sem Twin Peaks, não haveriam produções como: Arquivo X (1993-2002), Sopranos (1999-2007), Lost (2004- 2010). E sem Arquivo X e Sopranos, não haveriam Game of Thrones, Breaking Bad, Mister Robot....Vivemos um tempo em que poucas pessoas se preocupam em não ouvir, ver, ler o que está na moda. Se você é um desses estranhos (as), está apto(a) a ser um habitante de um sonho chamado Twin Peaks.

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