quarta-feira, 21 de março de 2018

Quando foi a última vez que você simplesmente ouviu música?



Ao ler o título desta coluna o leitor provavelmente responde: Hoje William, agora pouco, antes de pegar o jornal, ou a poucos instantes enquanto dirigia ou enquanto olhava as atualizações do facebook. Corrijo então a pergunta. Como você ouve música? Pense detalhadamente e faça uma reflexão se realmente você presta atenção no que está ouvindo e se simplesmente aproveita cada detalhe daquilo que está escutando, ou age no automático só pra ter um “barulho” enquanto vê seus e-mails e redes sociais.

Isso pode soar estranho, porém, acredito que tem muito haver com as mudanças no formato musical que ocorreram na última década. Se não vejamos. Até a metade da década de 90 as pessoas compravam um LP, colocavam em suas vitrolas e ao invés de verem o facebook, observavam cada detalhe, da capa do disco, ficha técnica, letras e fotos do encarte, era uma experiência musical completa! Não é atoa que muitos estão voltando suas atenções para o bom e velho vinil. O mercado norte-americano em 2014 teve um aumento de 49% na venda de discos de vinil. No Brasil a Polysom (única fábrica de vinil da América Latina) tem vendido seus LP’s por preços absurdos o que dificulta pra quem é entusiasta, mas torna impossível ter lançamentos recentes dos seus artistas nacionais prediletos.

Voltando ao assunto, quando eu era mais novo, em uma era pré-internet, tinha o habito de gravar fitas k7, era comum convidar amigos para vir em casa apenas ouvir música e jogar conversa fora, sempre um trazia uma novidade que gravou, ou comentava de alguma banda nova que descobriu em uma revista. Ou então, quem é da geração clássica da MTV vai se recordar da ansiedade de esperar passar aquele clipe pra gravar em VHS. O tempo passou, o CD ficou obsoleto e a geração MP3 chegou, ouvir música pelo computador, IPOD e Iphone virou a nova forma de se escutar e consumir música.
Deixando o saudosismo de lado, chego nos dias atuais, as vezes algumas pessoas se surpreendem ao ver tantas bandas ruins fazendo sucesso, tantos cantores sem talento que são um rosto bonito a lotar casas noturnas por seus dotes físicos e não qualidade artística.

Além das mudanças do mercado fonográfico, a maneira de se ouvir música é uma das culpadas. É comum as pessoas chegarem do trabalho, faculdade, rua e ligar o notebook para ouvir música sem prestar atenção naquilo enquanto navega-se nas redes sociais, muitas vezes o ouvinte nem lembra do que escutou minutos antes. 

Ano passado o cantor britânico Morrissey ao ser questionado pela revista NME sobre as razões da música pop britânica ser tão ruim atualmente, ele respondeu “Perguntei a uma vendedora de uma loja como ela aguenta ouvir aquele tipo de música o dia todo, ela respondeu, nem presto atenção”. Será que temos prestado atenção no que ouvimos em casa por opção própria?

Quer um exemplo? O sertanejo universitário faz sucesso porque é destinado a esse tipo de pessoa, justamente a que não presta atenção no que ouve, refrão fácil e grudento, e práticamente sem introdução, reparem como as musicas atuais não tem um inicio marcante, que cria um clima. O sertanejo universitário é destinado pra quem justamente não gosta de música.

Por fim, nesse final de semana faça um favor a você mesmo, chame um amigo ou amiga e simplesmente ouça música conversando, falando sobre os detalhes, aposto que você vai recuperar um pouco do prazer de simplesmente escutar música.

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