terça-feira, 20 de março de 2018

O Carnaval de 2018 e o “Enterro” do Rock Nacional


   

Na madrugada da última segunda feira (12) a escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti, surpreendeu a todos com o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta escravidão?”. Nunca fui muito interessado em carnaval, mas os comentários em torno do desfile da foram tantos que fui mais afundo para saber mais sobre o que tanto as pessoas comentavam. A escola levou a Sapucaí a história dos 130 anos da abolição da escravidão. Do Egito a Babilônia até os dias atuais. Aqui vale um registro curioso e histórico, no carnaval de 1988, todas as escolas trataram o mesmo tema, o Centenário da Abolição. Naquele ano, a Unidos de Vila Isabel foi a grande campeã. Quando esse texto for publicado, certamente já irá se saber o resultado da campeã de 2018 e imagino que não será a Paraíso do Tuiuti, não pelo enredo mas tem todo um aparato técnico que vai além de samba enredo, fantasias, adereços e outros detalhes. (Tomara que eu esteja errado)

Nos primeiros carros a escola deu todo contexto histórico da abolição com maestria, até então a equipe da Rede Globo conseguiu se virar bem na transmissão. Acontece que eles não esperavam o que viria na parte final do desfile. O último setor apresentou uma enxurrada de ironias deixando claro que a escravidão permanece até hoje mas agora com os políticos e grandes empresários (leia-se mídia) controlando a opinião e as pessoas. 

O último carro continha: Presidente Temer vestido de vampiro, paneleiros manipulados como fantoches, patos de borracha fazendo alusão ao pato da FIESP. Soma-se isso aos integrantes com a camisa da seleção brasileira de futebol e a tempestade perfeita estava montada. Visivelmente constrangidos e perdidos, Alex Scobar e Fatima Bernardes não sabiam o que dizer sobre a última parte do desfile e apenas falaram que aparentemente era uma crítica política. Pior, na reprise de segunda feira o desfile da escola não teve narração nem comentários. Pior que não concordar com algo é ser omisso.

O leitor se pergunta: tá mas o que o rock nacional tem a ver com isso? É comum ver os sempre tão inteligente “rockeiros” criticar o samba pelo fato do mesmo ter letras vagas ou mesmo não ter relação com a sua realidade. Bom, me parece que Paraíso da Tuiuti fez o que a anos nenhuma banda nacional de destaque faz ou consegue destaque fazendo, uma letra de protesto que fale diretamente com os brasileiros. 

O geriátrico rock nacional hoje em dia brinda os ouvintes com o defensor do militarismo, Roger do Ultraje a Rigor (aquele do Q.I alto) Lobão – um dos envolvidos nos protestos de 2016 dos paneleiros. Dinho Ouro Preto (cara, legal cara!) o eterno jovem que vive na sombra de Renato Russo até hoje. Titãs foram enterrados junto com “Epitáfio” (deveriam ter tocado menos, insistido menos e acabado a banda antes) e hoje virou quase uma banda cover de si própria, o mesmo se aplica a Raimundos. Citei aqui algumas bandas conhecidas, populares e que conversam com um grande público de todas as idades.

Essas não conseguem sair do passado. Levaram um banho da Paraíso do Tuiuti que não só fez um samba maravilhoso com colocou o dedo na ferida, incomodou poderosos, causou desconforto e fez o que o rock fazia décadas atrás, contestação. Rock hoje em dia é ouvido em sua maioria por pessoas na faixa de 30,40,50 anos que tem como nostalgia o combustível de vida e não conseguem sair disso. Uma pena.

As grandes bandas não souberam envelhecer, tampouco se reinventar, as novas gerações que fazem um trabalho legal no underground não conseguem sair do circuito SESC ou de pequenos clubes. As rádios não conseguem se livrar do sertanejo (porque não interessa a elas) Graças ao carnaval, o Samba chega a todas as camadas e sabendo disso, a Paraíso do Tuiuti deu o seu recado. A Mangueira também criticou o prefeito do Rio de Janeiro, sabendo do alcance da festa. Ou seja,devemos prestar atenção no samba de hoje em diante, ali está o povo, ali estão as pessoas que sentem as mazelas do país. O rock nacional fica nos apartamentos e inerte como uma manhã de quarta feira de cinzas.

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